Não consegue mesmo respirar?
- Thaislane Xavier
- 23 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
Esse texto pode conter gatilhos mentais para pessoas que sofrem de depressão, ansiedade e transtorno do pânico.

Droga!
O que Daniele mais temia estava acontecendo.
Ela sabia que participar de uma manifestação poderia dar nisso. Um lugar cheio de gente repetindo o brado “não consigo respirar” (última frase dita por George Floyd) somado ao medo de que ela fosse a próxima a morrer sufocada em uma abordagem só podia resultar nisso: uma crise de pânico.
Para onde ir? Onde se abrigar até que o ar voltasse aos seus pulmões e ela pudesse respirar normalmente de novo? Para todo lado só multidão, parece não ter uma saída, um lugar tranquilo. Ela precisava se acalmar, não era a primeira vez que isso acontecia, na verdade essas crises estavam se tornando parte de seu cotidiano.
Sempre que algo começava a dar errado, ou as neuras da sua cabeça começavam a apitar ela sentia a respiração falhar, o sabor da morte iminente ali na sua boca, sua vida inteira passando como um flashback em sua mente.
Mas hoje ela tinha jurado que ia ser diferente. Ela ia conseguir ir a manifestação e sair sem passar por uma nova crise. Seria sua primeira manifestação, e já que tinha reunido forças suficientes para ir, não podia sucumbir.
Tudo estava correndo tão bem, até que aquele medo, talvez irracional, mas completamente compreensível, voltar a sua mente quando viu a polícia se aproximar dos manifestantes: eu vou ser a próxima a morrer sufocada com um joelho policial no meu pescoço enquanto digo que não consigo respirar, ou vou levar uma bala perdida, que sempre encontra alvo em corpos como o meu,em peles como a minha.
O que sua terapeuta tinha pedido para fazer nesses momentos em que o ar faltasse? Tentar colocar os pés na realidade e afastar pensamentos como o de morte iminente, mas como fazer isso, quando sua morte poderia estar de fato iminente?
Para piorar ela tinha se perdido de seus amigos, como achá-los se mal conseguia respirar e já sentia os efeitos da falta de oxigenação e com aquela multidão de milhares de pessoas pela Paulista inteira?
E se ela morresse ali, sem ninguém e fosse um polícial a achar seu corpo. E se sumissem com ela e só aparessem dias depois dando uma desculpa qualquer para a sua morte? Será que ela ao menos não tinha esquecido de levar seu documento de identidade e isso facilitaria reconhecerem seu corpo? Mas e se ela tivesse esquecido?
E se? E se? E se?
Calma, respira. Você está bem. Você está viva. Não precisa ficar pontuando vários e ses na sua cabeça.
Eu sei disso (ela respondia e debatia consigo mesma), mas até quando? E se daqui a dois segundos eu não mais estiver?
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Transtorno de ansiedade e do pânico são assuntos sérios, e não frescura, como muita gente, infelizmente, ainda acredita ser.
Os brasileiros com algum transtorno de ansiedade são, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 9,3% da população. Sendo assim, o Brasil é o país com a maior número de pessoas com transtornos de ansiedade no cenário mundial. Mas esse número pode ser muito maior.
Desenvolver algum desses problemas é uma questão multifatorial, ou seja, uma junção de fatores que leva a uma crise, ou a várias. “Mas o nível de vulnerabilidade ao qual essas pessoas estão submetidas, as pressões aumentam os riscos. Isso é muito comum nas áreas com que eu trabalho, que são causas minoritárias”, explica a psicóloga Tainara Cardoso, especialista em saúde mental da população negra.
Ela comenta que ansiedade e a pele negra andam juntas. Isso se deve ao lugar em que essa parcela da população sempre foi colocada em nosso país: a margem. Pessoas de pele preta sempre precisaram trabalhar muito e foram obrigados a entender que “tempo é dinheiro desde sempre”, continua
.“Aí a falta de ar vem, os problemas no trato respiratório aparecem, o medo exorbitante de morrer e de perder o controle.”
Para agravar ainda mais a situação “a nossa gente nunca foi ensinada a se cuidar e procurar tratamento na psicologia.” Então, quando se fala em 9,3% da população, se fala apenas das que entendem a importância de manter a saúde mental e que tem condições financeiras para tal, já que a psicologia clínica ainda não é acessível para todos.
Há vários movimentos para tentar levar tratamentos psicológicos para todo mundo, mas ainda assim isso não existe em todos os lugares. Por isso, manter se perto de uma rede socioafetiva, como amigos e familiares, pode ser muito importante. “Em muitos municípios temos serviços como o CAPS [Centro de Atenção Psicosocial], leitos de emergência psiquiátricas, SPAs [Serviço de Psicologia Aplicada] que vão oferecer valores bem simbólicos”.
“A gente tem algumas opções hoje, mas a gente vai precisar entender o cuidado como uma possibilidade de existência primeiro”, finaliza.



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