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O sebo além das páginas amarelas

  • Foto do escritor: Thaislane Xavier
    Thaislane Xavier
  • 14 de mai. de 2020
  • 4 min de leitura



Páginas amareladas, poeira, uma senhora simpática atrás do balcão, estantes e mais estantes de mundos e possibilidades. Essas são algumas das coisas que passam pela cabeça das pessoas quando escutam a palavra sebo. Mas essas lojas de livros usados vão muito além dos estereótipos que damos a ela.


Cada livro que preenche aquelas estantes têm histórias. Alguém folheou aquelas mesmas páginas, e criou percepções sobre o que ali estava. Talvez tenha se emocionado e deixado cair uma lágrima ou duas. Ou, pode ser, que tenha odiado, tacado na parede, esquecido no fundo de uma gaveta. Quem sabe foi presente, uma compra por impulso, um livro emprestado que nunca retornou.


Talvez o novo dono nunca saiba tudo aquilo pelo que aquela obra tenha passado, ou talvez o saiba e exatamente por isso resolveu comprar.


Seu Robespierre, dono do Sebo Fonte do Livro, em Maringá, conta que decidiu abrir sua loja porque sempre alguém passava em sua banca de jornal e pedia indicações, havia falta de lugares onde comprar livros usados na cidade e ali ele viu uma oportunidade. O negócio começou pequeno, mas logo foi crescendo e ele precisou expandir para várias salas, criar mezaninos e aproveitar cada pedacinho para que todo o seu acervo coubesse.


Com cerca de 20 anos de funcionamento seu sebo coleciona histórias, não tantas quantas as do livro que por ali passam, mas o suficiente para preencher uma tarde de conversa acompanhada de café. Uma dessas histórias é a de um livrinho com dedicatória.


“Chegou um cara no sebo para vender um livro. Era um livro de literatura brasileira de autor desconhecido, mas com uma dedicatória e ele achava que o livro tinha valor por causa daquela dedicatória. Eu expliquei para ele que não, aquele autor era desconhecido e aquela dedicatória tinha valor para quem o autor tinha feito, apenas”, começa Robespierre a contar aquela história.


Após muita barganha, ele convenceu o dono a aceitar o preço por aquele livro que seria difícil de vender, quiçá impossível. Mas após alguns meses, ele não viu mais o livro no seu lugar, achou que deveria ter vendido e esqueceu aquela história. Mas cheia de surpresas como a vida é, o livro reapareceu.


Um cliente antigo do sebo chegou ao caixa para pagar um livro, com lágrimas nos olhos contou que aquele livro tinha saído de sua casa, em São Paulo, e há anos que ele procura aquela obra, que tinha sido presente do autor e por isso a dedicatória. Como esse livro saiu de seu lugar de origem e foi ali parar nenhum dos dois soube dizer, mas a improbabilidade não permitiu que aquele momento fosse esquecido.


Falando em histórias, é algo que a família que gerencia o Sebo Museu do Livro, em Jundiaí, também tem para contar. A ideia de criá-lo surgiu de Dona Solange, que juntamente com sua mãe, Maria de Fátima, gostava da liberdade de ser autônoma. E aos poucos foi se tornando um negócio familiar, quando Fabiana, a irmã, e Bruno, o sobrinho, se juntaram para ajudar a tocar o sebo.


Tudo começou na garagem de casa, depois ganhou um espaço próprio e duas bancas, uma delas dedicada apenas a doação de livros, você pode deixar ali as obras que não quer mais e/ ou pegar a que desejar, sem restrições.


Ainda quando funcionava na garagem, o negócio ganhou mais um ajudante e a família, mais um membro: o seu Ricardo. Ele é um senhor, com deficiência mental, que começou a ir visitar o sebo diariamente. Quando questionado se precisava de ajuda para procurar algo específico respondeu que não, só gostava de ir ali e estaria disposto a trabalhar como voluntário, e receber um livro ou outro como única recompensa. E assim já faz cerca de 15 anos que ajuda o negócio familiar.


Bruno conta que seu Ricardo teve melhora significativa em seu quadro depois disso, que a família é grata, pois se relacionar com ele virou algo mais fácil e as duas famílias passaram a nutrir carinho uma pela outra.


Mas as histórias não param por aí, Robespierre ainda tem o prazer de ter em suas mãos um livro que não só passou pelas mãos de Machado de Assis como foi alterado pelo mesmo. Não, você não leu errado. O grande autor publicou uma obra que reunia as suas obras anteriormente publicadas em jornais, o Poesias Completas.


No processo de ir para gráfica um erro pequeno, mas que constrangia o autor aconteceu: um e foi trocado por um a. Cegara virou cagara e assim que notou o ocorrido Machado recolheu os livros e mandou imprimir uma nova leva, alguns foram vendidos com o erro, mas ele não permitiria que nenhum outro fosse vendido.



Ele resolveu então, ir apagando com muito cuidado a letra errada e corrigindo a palavra, quando corrigido (pelo punho de um dos maiores escritores nacionais) eles voltavam para as lojas. Um desses está na casa de Robespierre “é um livro que eu não vou vender”.


A Jozi é outra apaixonada pelos livros e, em 2016, com ajuda de dois amigos, abriu o Sebo da Jozi. Ela acredita que o livro é uma ferramenta de conhecimento e enxergando o cenário político em que o Brasil estava e a quantidade de comércios culturais se fechando decidiu correr o risco de ser uma empreendedora no ramo.


“O livro é o acesso mais democrático ao conhecimento. Para o livro não existem diferenças. Não importa quem o abra: classe social, gênero, escolaridade, etnia, etc. A partir do momento que você o abre, ele compartilha com você todo aquele conhecimento, informação, diversão, que está dentro dele”, é o que ela afirma. E não mentiu.


Mas em tempos de incerteza, em um país em que já não é leitor, lugares como sebo são ameaçados. Nenhum dos três trazidos nesta reportagem está aberto em horário integral, estão respeitando as normas de suas cidades e estados. Entretanto, nenhum teme o fechamento, apesar de as vendas terem caído, eles ainda conseguem fazer entregas, vender pela Estante Virtual e redes sociais. Logo, você, meu caro leitor, pode continuar comprando e ajudar que histórias como essas continuem sendo contadas e vividas.

 
 
 

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