Resenha: E O Vento Levou
- Thaislane Xavier
- 2 de jun. de 2020
- 3 min de leitura

Imagine que um belo dia você sofre um acidente enquanto procura furos de reportagem e precisa ficar acamada? Foi o que aconteceu com Margaret Mitchell. O marido da jornalista decidiu, então, levar livros para que ela se distraísse nesse período. Mas, em determinado momento, ela leu todos os que tinham em casa e ele resolveu a incentivar escrever sua própria história.
Foi assim que nasceu E O Vento Levou (Gone with the Wind), publicado pela primeira vez em 1936 e trazido ao Brasil, principalmente, pela editora Record. O livro ganhou o prêmio Pulitzer de 1937. Sua adaptação para o cinema (homônima), de 1939, foi indicada a 13 Oscars, ganhando oito, inclusive o de melhor filme e de melhor atriz para a inesquecível performance de Vivien Leigh.

[Foto: Reprodução]
Em suas mais de 900 páginas o livro traz a história de Scarlett O’Hara, uma menina mimada por volta de seus 16 anos que vai ver a sua vida mudar com a eclosão da Guerra Civil Norte-Americana. Apesar se ser uma personagem quase antagonista, ela é também uma das mais bem construídas, junto com o seu parceiro de jornada: Rhett Butler, da literatura e do cinema.
A autora soube trabalhar muito bem cada um de seus personagens e gerar uma complexidade de sentimentos maestral. O filme, mesmo com quase quatro horas de duração e um roteiro excelente, ainda deixa muito a desejar em questão desenvolvimento se comparado ao livro.
Os dez anos que Margaret levou para construir toda a sua história valem a leitura de cada uma de suas páginas. Ela se baseia em histórias que ouvia desde criança e um amigo historiador para conseguir descrever as batalhas durante a Guerra Civil com propriedade e sem cansar o seu leitor. Batalhas essas pouco vistas no filme, mas bem retratadas da maneira como escolheram fazê-lo. A história é completa, mostrando uma elite estadunidense antes, durante e depois desse momento histórico importante.

[Foto: Reprodução]
A única grande falha dos escritos de Mitchell é o racismo. Scarlett e todos que a cercam são sulistas e escravocratas que se consideram superiores aos negros. É uma relação complexa: a protagonista em vários momentos fala, por exemplo, que seus escravos são parte de sua família, no entanto, eles fazem trabalhos que nenhum de seus membros familiares fazem.
Além disso, em várias passagens fica claro que eles se consideram na obrigação de ensinar os negros, que são mentalmente inferiores, e fazer escolhas em seu lugar, já que os próprios não seriam capazes de decidir o que fazer. Em outras, ela deixa claro que jamais entenderia os ianques, que tratavam os negros como iguais e se sentavam nas mesmas mesas que eles, ou que os negros livres eram perigosos e nem um pouco confiáveis.
É compreensível que foi um livro escrito há muito tempo. Um tempo em que temas como esse não eram tão discutidos e a escolha narrativa que a autora fez foi retratar o lado perdedor da Guerra, e escravocrata. Isso não tira o mérito de todas as outras coisas e questionamentos que o livro trás. Pede apenas uma leitura mais atenta e um cuidado, especialmente de pessoas que não vivem o racismo vindo desde períodos escravocratas, quanto ao que dizer sobre o livro.
O longa, também não aborda tão fortemente frases racistas presentes na obra e deixou de lado, por exemplo, a formação e ação da Ku Klux Klan (feita de forma muito romantizada no livro), já que essa era — e é— uma questão problemática. Tal como a relação de Scarlett com a maternidade que foi bem menos enfática na adaptação e que faz falta.
Os efeitos especiais não são como as produção de hoje, mas isso não tira a poesia e a beleza do que Victor Fleming, o diretor, conseguiu fazer naquela época. A trilha sonora foi muito bem escolhida e os locais muito bem ambientados. Ainda na adaptação, as atuações são espetaculares e mostra porque o longa se tornou um clássico do cinema mundial.
Mesmo não conseguindo trazer todos os pormenores da obra original e precisar priorizar algumas coisas em detrimento de outras, há uma atenção aos menores detalhes que fazem toda diferença e saltam aos olhos daqueles que já leram a história.
Passar quase quatro horas assistindo E O Vento Levou pode ser menos cansativo, mas passar por cada um das 952 duas páginas antes de chegar a adaptação cinematográfica não vai te decepcionar.



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