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Resenha: Todo Dia a Mesma Noite

  • Foto do escritor: Thaislane Xavier
    Thaislane Xavier
  • 9 de jun. de 2020
  • 4 min de leitura

Capa de Todo Dia a Mesma Noite / Divulgação

No dia 27 de janeiro de 2013, o vocalista da banda Gurizada Fandangueira ligou um sinalizador dentro da Boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Assim se iniciou o segundo maior incêndio brasileiro em número de vítimas. Ali dentro não poderiam ter nem 700 pessoas, tinham mais de 1000. Foram 242 vidas e histórias interrompidas. E outras tantas para sempre modificadas.


É esse cenário caótico e assustador que Daniela Arbex retrata em seu livro Todo Dia a Mesma Noite: A História Não Contada da Boate Kiss, lançado pela Intrínseca.


“Este livro é uma recusa ao esquecimento. Ao tomá-lo nas mãos, você está participando do imenso esforço coletivo para fazer da memória um instrumento de conforto e de respeito à dor alheia.”

Na obra, a autora, e também jornalista, reconstrói o dia daquelas famílias antes da tragédia. O que os filhos e os pais fizeram, quais foram as últimas palavras de um para o outro e o momento em que recebiam as notícias do que estava acontecendo e percebiam que um ente querido, uma parte sua, estava ali dentro e não atendia o celular.


“[...] e celulares, muitos celulares. Num deles, o visor trazia, ao lado da palavra ‘mãe’, 134 chamadas não atendidas.”

Também estão presentes os relatos de enfermeiras, médicos, bombeiros, militares e muitos outros voluntários que ali apareceram após receberem telefonemas informando o que estava acontecendo. Entre esses está a história do médico Ewerton Nunes Morais, que quase perdeu o filho naquela madrugada e, mesmo assim, engoliu o choro, se impediu de pensar e colocou seu lado profissional, que precisava salvar vidas, acima de tudo.


“Era preciso continuar atendendo, mesmo após saber que o filho estava entre as vítimas. [...] Precisava agir como médico para salvar a vida do filho semimorto.”

O leitor se apega aos personagens, mesmo conhecendo apenas um dia deles pela ótica de seus entes queridos, a tal ponto que se vê torcendo para que eles estejam entre os sobreviventes, mesmo sabendo que provavelmente não estarão.


A cada página novas emoções são despertadas, as vezes compaixão, as vezes raiva, em momentos tristeza e angústia, em outros é necessário até fechar o livro para digerir o que se está sentindo, não se é capaz de fazê-lo e continuar a leitura.


“Não havia como ficar imune ao sofrimento causado por aquela tragédia.”

Daniela foi extremamente respeitosa ao contar as histórias, que não estão em primeira pessoa, mas mostram um trabalho e uma pesquisa intensa antes de colocar uma vírgula no texto.


Os pais e voluntários que aceitaram conversar com ela foram muito corajosos de reviver todo aquele dia, provavelmente um dos piores, senão o pior, de suas vidas.


A autora não aponta dedos, apresenta todos os fatos, todos os possíveis culpados, todas as ações e reações e deixa a difícil missão para o leitor de decidir o que pensar a partir do lhe foi informado.


“[...] os frequentadores da Kiss foram envenenados pelo mesmo gás letal usado nas câmaras de gás construídas nos campos de concentração nazistas.”

A escritora conta com tantos detalhes e fornece tantas informações que quem lê sente a mesma adrenalina. Quando ela retrata um dos jovens na tentativa de sair da boate é quase como se você estivesse saindo com ele, o sentimento não é o mesmo, claro, mas é uma pontinha do que eles sentiram.


Uma pontinha porque o país ficou em choque, várias outras boates foram fechadas em todo o país por estarem em situações semelhantes a da Kiss. Houve comoção e mobilização, voluntários seguiam de todo o território nacional para tentar ajudar de alguma forma. Em todos os canais tinham diversos plantões com atualizações do número de mortos e feridos, dos resultados, cada vez mais inacreditáveis, das investigações que estavam sendo feitas.


Fachada da Boate Kiss / Policia Civil do Rio Grande do Sul

Por alguns dias, os olhos do Brasil, e do mundo, estavam voltados para Santa Maria, todos tentavam achar culpados e buscavam justiça. Cinco anos depois, quando o livro foi escrito, poucos se lembravam, muitos nem sabiam a que pé estavam as investigações. Mas os pais lembram e clamam para que a morte de seus filhos não tenham sido em vão, essa é uma válvula de escape: a busca por justiça, a tentativa de evitar que mais pessoas, mais jovens, morram em desastres como aquele, a tentativa de lembrar.


Mas, assim como tragédias servem para mostrar o melhor lado da humanidade, elas servem também para mostrar o pior. E Daniela não esconde nenhum dos dois em seu livro. Pessoas que iam até o ginásio para tirar fotos e saciar sua curiosidade mórbida, funerárias que aumentavam exponencialmente seus preços, já que as famílias não tinham opção.


Alguns culparam os pais pela morte dos filhos, outros os criticam por continuar lutando e buscando culpados pelo que aconteceu, pois isso “prejudica a imagem da cidade”.


“Para as vítimas indiretas do incêndio na Kiss, resistir não é uma escolha, mas um imperativo de sobrevivência.”

Essa obra é necessária. Os pais precisavam ser ouvidos, detalhes não colocados em reportagens feitas na época precisavam ser mostrados. O que aconteceu e os seus desdobramentos, que ninguém mais acompanhava, precisavam ser escancarados. Mas, se for encarar essa jornada, separe alguns lenços, você vai precisar.

Observação: todos os trechos apresentados são recortes do que Daniela apresenta na obra, mas nada que vá estragar sua experiência com a leitura. Essa é apenas uma ponta do iceberg.
 
 
 

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